Lágrimas que vertem para cima


Lágrimas que vertem para cima...

No quarto escuro abro uma porta e entro no recôndito da mente, vejo uma placa indicando um caminho, sigo por ele e mesmo no escuro a cada passo o piso seguinte se ilumina indicando onde devo pisar.

Sinto um vento uivante, escuto ao longe gritos, risos, choros, escuto crianças correndo e carros acelerando, barulho de máquinas e também de árvores, mesmo confuso eu reconhecia cada um.

Cheguei diante de uma plataforma, toda em granito polido, não havia poeira, ao mínimo ponto de luz ela refletia, brilhava.

Nesta plataforma havia um trampolim, uma prancha de salto, na placa dizia: salte no abismo das memórias, pois o seu final é o início.

Sem entender o que dizia um vento forte me surpreendeu, ele uivava como um lobo, eu tentei me segurar de todas as formas, mas o granito era tão liso que eu fui sendo empurrado vagarosamente para a beirada da plataforma...

O vento uivante, soprava e no final de cada uivo falava... pule... pule...

Então pulei, parecia um salto de um avião de tão alto que era, profunda escuridão, mas eu via lá embaixo vários feixes de luz, como se fossem camadas, etapas.

De início temi, pois não sabia o que aconteceria em cada um deles. Então chegou o primeiro feixe de luz e vi minha mãe sorrindo depois de me ter em seus braços pela primeira vez...

No feixe de luz seguinte eu me via correndo na rua brincando com meus amigos, dias de muitas alegrias, dias em que a vida adulta não arranca o sorriso de uma criança...

Continuei em queda livre, meu coração estava cheio de alegria, então veio o próximo feixe, mostrando as decepções enquanto criança, enquanto adolescente e jovem, mas me mantive tranquilo e com o coração como o de costume, frio, duro e negro.

Veio o próximo feixe, ele mostrava lembranças de quando amei, lembranças de quando casei, lembranças de uma vida... e eu sorri.

O feixe seguinte foi o nascimento do primeiro filho, comecei a me lembrar do medo que acompanha os pais durante a gestação, o mede de algo dar errado, e logo em seguida veio a cena dele nascendo, sendo puxado pelo médico, chorei... e as lágrimas vertiam para cima.

O outro feixe foi o nascimento de minha menina, muita alegria, e uma semana depois desespero. Lembrei que uma semana depois ela voltou ao hospital para se internar e o prognóstico era de que provavelmente não falaria e nem andaria. 

Chorei ao me lembrar...

Em seguida sorri em me recordar da oração... Deus ouviu e agiu, ela ficou sã e quando chegou a época de falar e andar, nossa como falava e andava!

E as lágrimas de alegria vertiam para cima... 

Eu estava em queda livre, cada gota de lágrima não caía, mas subia...

Percebi que a cada lembrança, cada experiência que passei me deixavam marcas no coração, mas ainda não compreendia o todo.

Continuando em queda vi uma luz fraca e naquele feixe havia uma névoa de tristeza, lembranças do fim, lembranças da desesperança, lembranças da dor, muitas lágrimas verteram, molharam minha testa, mas uma doce voz me lembrou da placa na beirada do abismo: "O Final é o Início".

De certa forma comecei a me sentir confortado, me senti sobrenaturalmente abraçado.

Passei por vários feixes apagados, por vários que deveriam estar acesos mas de alguma forma eu estava apagado naquele tempo.

Então passei por alguns que tinham uma luz piscante com um sonido sibilante... me lembrei dos primeiros choques de realidade, do desfibrilador no meu coração me acordando do coma, me lembro de olhar em volta e entender a realidade.

Acabou, a antiga vida acabou, acabou o menino.

Foi um choro final naquele dia, lembro-me do meu coração se obscurecendo e se fechando, endurecendo e brotando espinhos...

Não chorei, lembro-me do sorriso jocoso e ao mesmo tempo frio que dei, e quem sorria de volta para mim era o lado negro da vida, pois me bateu até conseguir tirar minha alegria espontânea e vontade de viver, viver para outros, pois a pessoa que vive para si mesmo na verdade morre a cada dia, Deus fez o ser humano para servir a outros, servir no sentido de dar sua vida a outros, dar um pedaço do seu coração.

Continuei caindo em queda livre, o corpo acelerado, e tinha um feixe brilhante e fiquei confuso, quando passei por ele me lembro da primeira vez que subi ao cume de uma montanha e dei de  cara com quem eu não esperava, lembro-me da forma que subi, alma sangrando, eu queria levar meu corpo a exaustão e esquecer toda a minha vida, deixar tudo pra trás... mas no cume, encontrei com um escalador que havia me explicado que seu ofício no passado era a carpintaria, ele percebeu como meu coração estava, ele viu os espinhos, no cume daquela montanha eu caí em um sono profundo e o escalador pegou em meu coração mesmo ferindo suas mãos com meus espinhos.

Ele teve o cuidado de limpar aquele coração petrificado, negro, espinhento e sem vida...

Quando acordei ele não estava mais... e eu não conseguia parar de chorar por estar vendo meu coração bater...

Era como se tivesse renascido, um choro de alegria...

No próximo feixe eu vi uma luz vermelha. 
O planeta Terra foi encoberto por um enorme manto negro, uma peste assolou o planeta e trancafiou a todos em suas casas, lembro-me do choro das pessoas, de entes e amigos, aquilo me entristeceu.
Me lembro de não pensar mais em mim, mas em outros, comecei a doar o meu tempo a outros, meu coração já era grande demais para ficar só dentro de mim.

E finalmente meus pés tocaram o chão...
Parei de cair, mas ainda chorava e as lágrimas continuavam vertendo para cima.

Um homem à minha frente, tinha uma voz conhecida, era o escalador, aquele que já fora carpinteiro, mas a luz que vinha de seu rosto era muito forte, só via sua mão apontando para cima e nela tinha um furo no meio, como de quem já teve suas mãos pregadas em um madeiro.

Ao apontar para cima ele me mostrou as lágrimas subindo para uma nuvem que estava carregada de relâmpagos, parecia que iria chover a qualquer momento, mesmo sendo imponente a nuvem não dava medo.

Então ele falou, cada lágrima vertida para cima foi uma oração sua, dita ou não que meus anjos recolheram, hoje você tem a maturidade necessária para administrar as bençãos que virão, se prepara, pois vai chover bençãos sobre sua vida e sobre os que te rodeiam.

Continue regando a vida de outros.

Te amo e nunca te esqueci, estive com você em cada momento, desde que nasceu até agora.

Você nunca esteve só.
Jesus (O carpinteiro das montanhas).

Autor: Anderson Ribeiro Sousa



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